Por que o ritmo do mundo não combina com o corpo feminino
Diretriz da FDA restringe a participação de mulheres em idade fértil nas fases iniciais de estudos.
A inclusão de mulheres em pesquisas clínicas financiadas pelos NIH passa a integrar a legislação federal.
Sexo biológico passa a ser considerado como variável em pesquisas financiadas pelos NIH.
Durante boa parte do século XX, a medicina teve um paciente modelo: um homem jovem, saudável, com cerca de 70 quilos. Doses de medicamentos, valores de referência e até cálculos relacionados à exposição à radiação foram, em diferentes contextos, construídos a partir de características masculinas. A mulher aparecia muitas vezes como uma variação desse modelo, uma versão menor e biologicamente mais complexa.
Essa escolha não aconteceu por acaso.
Em 1977, depois da tragédia da talidomida, a FDA recomendou a exclusão de mulheres em idade fértil das fases iniciais de determinados ensaios clínicos. A intenção era proteger possíveis gestações. O efeito, porém, foi reduzir a participação feminina em pesquisas que ajudavam a definir o que seria considerado seguro para a população.
Durante anos, um dos argumentos utilizados era que as oscilações hormonais femininas poderiam dificultar a interpretação dos resultados. O ciclo menstrual passou a ser tratado como uma possível fonte de variação que deveria ser controlada ou eliminada, em vez de ser estudado como parte da própria biologia humana.
Essa orientação começou a mudar em 1993, quando os Estados Unidos estabeleceram políticas para ampliar a inclusão de mulheres em pesquisas clínicas financiadas pelo governo. Mesmo assim, a pesquisa biomédica continuou apresentando desequilíbrios importantes. Em 2016, os National Institutes of Health passaram a exigir maior consideração do sexo biológico como variável em pesquisas financiadas pela instituição, inclusive em estudos com animais.
Isso significa que parte importante do conhecimento médico que utilizamos hoje foi construída a partir de um modelo corporal que não representa toda a diversidade humana.
Não se trata de atribuir culpa. Trata se de compreender a história da ciência para entender suas lacunas.
Quando percebemos de onde veio o corpo padrão, começamos também a perceber quanto ainda precisamos aprender sobre os corpos que ficaram fora dele.
No próximo artigo: o que acontece, na prática, quando o padrão falha.
Referências institucionais
Nem todo corpo cabe no antigo padrão.
Compreender as lacunas da pesquisa é um passo para construir conhecimento mais representativo sobre a saúde feminina.
Conheça a Cyclical LifeConteúdo educativo. Este artigo não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento de profissionais de saúde.


